MEU PAI (em perfil)

DOMINGOS PITTELLI  - 25/07/1963

Na fase crepuscular
do século dezenove
a velha Europa promove
as grandes emigrações.

L
evas de moços sadios
alimentando esperança
de uma era de bonança
demandavam estes rincões.

Aqui aportou, então,
vindo de terra distante,
- da bela pátria de Dante –
aquele que foi meu pai.

Trazia consigo a esposa
e perdeu na travessia
um filhinho que trazia,
quando a sorte má o trai.  

Nem ainda o trem de ferro
alcançava esta paragem
quando fez sua viagem,
concluindo-a então a pé;  

Moço novo, resoluto,
pronto ao trabalho se aferra,
lavrando na nova terra
o plantio do café.

Em seguida, anos depois,
mal entrava a madrugada,
já se encontrava na estrada
com carroça de animais,
levando à estrada de ferro,
de trilhos inda distantes,
os produtos abundantes
das roças iniciais.

Exerceu depois, ainda,
a profissão de pedreiro,
tendo sido grande obreiro
de casas nesta cidade.
 
O seu progresso lhe deve,
da atual situação honrosa,
contribuição vigorosa
de sua operosidade.  


Com muito esforço e carinho,
partindo da estaca zero,
construiu com todo esmero
também a própria morada.

Aí viu nascer e crescer
sua prole numerosa,
com a ajuda cuidadosa
de uma esposa dedicada.  

Mas nem tudo foram rosas
na nova pátria adotiva,
à qual uma vida ativa
lhe dedicou desde moço.

Quando da guerra, já velho,
padeceu penas e agravo,
tendo sido embora um bravo
do trabalho e do esforço!  

Velho e simples, merecia
antes respeito e carinho
que um odioso e mesquinho
cerceamento à liberdade!  

Também suas propriedades
foram todas congeladas,
certo por leis inspiradas
da guerra na crueldade.  

Mas da medalha o reverso
fez afinal que se visse
cercado em sua velhice
da maior felicidade.  

Fechou os olhos ao mundo
calmo como um passarinho,
quieto, meigo, sozinho
- e vive em nossa saudade!

 

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